Pensamento Crítico

25 de novembro de 2011

Por que é que os filhos de pais divorciados "devem" viver com as mães? Esta questão sempre me deixou desconfortável. Surgiu na minha vida quando os meus pais se separaram. Voltou a surgir anos mais tarde, no meu 1º ano de licenciatura em Direito, quando a professora de Direito da Família, dirigindo-se aos alunos, afirmou com toda a sua convicção que após a separação do casal os filhos devem ficar a viver com a mãe, porque é o melhor para eles, e que o pai só luta pela guarda dos filhos para fazer frente à mãe, não por querer, realmente, ficar com eles.




Ora, uma vez que eu escolhi ir viver com o meu pai e sei que ele fez os possíveis e os impossíveis para ficar com a guarda dos filhos, fiquei verdadeiramente revoltada com a opinião da minha professora, apresentada (numa sala de aula, note-se) como se de uma certeza incontestável se tratasse. Na altura, contestei aquela afirmação e o argumento que me foi dado foi o de que “na generalidade é isto que acontece”. Mas por que raio temos nós de estar sempre a generalizar tudo? A meter tudo no mesmo saco, quando cada caso é um caso e cada pessoa é única, diferente de todas as outras?

É certo que a opinião da minha professora é a opinião de muitas outras pessoas, provavelmente da maioria, isso não contesto. Diz-se que a figura materna é superior à paterna, que a presença da mãe na vida dos filhos é fundamental para o seu desenvolvimento pessoal, para a formação da sua personalidade, porque a mãe dá coisas que o pai não consegue dar. Dizem que o filho sente mais ligação com a mãe porque nasceu de dentro dela, ligação essa que não deve ser quebrada durante a infância, e que a ligação com o pai só surge mais tarde, numa fase posterior. Blá blá blá… “Mãe é mãe”, é o que mais ouço dizer. Pois, a mim, parece-me que existem outros motivos por detrás destes argumentos, tão utilizados e reutilizados que chegam a ficar gastos. Acho que, acima de tudo, as pessoas continuam agarradas ao passado, ao tradicional, a uma ideia feita. Ideia de que os filhos só precisam da mãe, e não do pai, durante o seu crescimento. Ideia que, em tempos, foi verdadeira, até porque, mesmo não sendo o divórcio banal como é hoje em dia (quase não acontecia), o pai era uma figura muito ausente. Mas continuará a sê-lo?

Na minha opinião, formada não só pelo que vejo à minha volta e leio, mas também por factos que aconteceram na minha vida, e não na vida dos outros, e por sentimentos que senti, acho que se evoluiu bastante neste aspecto da família ao longo dos últimos anos, nomeadamente no que diz respeito ao papel do pai. Assim como a mãe evoluiu (e tão heroicamente, como dizem) conseguindo conciliar uma vida familiar e laboral, também o pai deixou de ser aquele elemento da família frio e distante, vocacionado unicamente para o trabalho, para o sustento e protecção da família, que quase não vê os filhos porque não tem tempo. Por que não assumir isso de uma vez por todas? Hoje em dia, muitos são os pais que ajudam os filhos a vestirem-se de manhã e os deitam à noite. Muitos fazem um esforço considerável para arranjar tempo de ir almoçar a casa para estarem mais presentes. Cada vez mais são os homens que chegam a casa do trabalho e ainda cozinham com boa cara. A figura paterna tornou-se, de forma natural, mais familiar e presente. O que quero dizer é que os homens dos nossos dias conseguem fazer (e diria eu, na perfeição), o trabalho deles e o trabalho de uma mãe. O trabalho de uma mãe no sentido de conseguirem acompanhar os filhos, educá-los, transmitir-lhes valores, proporcionar-lhes estabilidade e conforto. Abdicam de muitas coisas que lhes dão prazer, e até de algumas horas de trabalho, para os filhos se sentirem bem sob o seu tecto. E digo isto tão convictamente porque tenho um exemplo em casa, um pai que faz o papel de pai e mãe, e que conversa com os filhos abertamente sobre o que sente.

Por isso, não me venham dizer que a generalidade dos pais luta pela guarda dos filhos, alterando toda a sua vida e rotina, para demonstrar ter condições suficientes para ficar com eles, só para fazer frente à mãe. Não me venham dizer que os pais não têm instinto familiar como as mães, aquela vontade de manter os filhos no seu ninho, porque têm. Acredito que haja pais que não tenham esse instinto, mas também existem mães que não o têm. Portanto, não vamos generalizar, se faz favor.
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